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Orientando
o Desempenho através da Gestão de Conhecimento
Por
Jacalyn S. Smeltzer, Ph.D. (tradução
para o português de Marcelo J. M.
Silva, mestrando em Psicologia Experimental – USP)
Estudos
têm concluído que menos de
20% do conhecimento corporativo é apreendido.
Além disso, menos de 20% do que é apreendido é reutilizado – ou
potencializado(1), em novas situações.
A maioria dos tradicionais sistemas de gestão
de conhecimento (SGCs, ou KMSs do inglês
Knowledge Management Systems) se atém apenas
ao primeiro desafio – capturar o conhecimento
em um repositório corporativo de informação.
E quanto a assegurar que o conhecimento capturado
também seja potencializado (ou seja, reutilizado)?
Não há impacto em produtividade e
eficiência sem que se dedique tanto a apreender
como a potencializar a informação
e o conhecimento corporativo. Se o SGC de uma organização é principalmente
um repositório de informações
documentadas e não foi projetado para que
se consiga potencializar a informação,
resultará em um sistema cheio de informações
irrelevantes que é usado facultativamente – um
pântano de “bugigangas”. Apesar
deste tipo de SGC ser comum, agrega pouco valor à organização.
O que
pode ser feito para assegurar que um SGC proporcione
realmente uma contribuição
de valor aos negócios da organização?
Neste
artigo, eu definirei gestão de conhecimento,
descreverei brevemente os tradicionais SGCs e mencionarei
cinco princípios que foram aplicados ao
projeto e implementação de um SGC
na Triad. O SGC da Triad é uma história
de sucesso na medida em que sua avaliação
demonstrou haver efeitos positivos, estatisticamente
significativos, sobre o desempenho. Em resumo,
o SGC da Triad orienta o desempenho de seus usuários.
O que é Gestão de Conhecimento?
Você pode estar se perguntando: “o
que quer dizer gestão de conhecimento?” A
diversidade de idéias sobre gestão
de conhecimento torna difícil para o leigo
entender do que se trata. Entre outros fatores,
isto se deve ao fato de que vendedores generalizam
as descrições de seus produtos para
buscar um mercado maior. Gestão de conhecimento
se refere a diretrizes, políticas e práticas
que uma organização usa para criar
e transferir informação (por exemplo,
documentos, patentes, processos intangíveis,
modelos, métodos de trabalho etc.) que dá suporte
ao desempenho das pessoas nesta organização.
Gerenciar este “conhecimento” engloba
coisas como assegurar que o tipo apropriado de
informação corporativa seja adquirida,
organizada, armazenada, preservada, distribuída
e reutilizada adequadamente em novas situações.
Em resumo, é assegurar que a informação
correta esteja disponível e seja utilizada
pelas pessoas corretas no momento correto. Um SGC é a
estrutura organizada, ou sistema, que uma organização
usa para realizar gestão de conhecimento.
Sistemas Tradicionais de Gestão
de Conhecimento
Inovações em programas de computador
e em tecnologia levaram a uma coleção
de programas para gestão de conhecimento
em escala corporativa, que aumentam consideravelmente
a capacidade das organizações de
documentar e apreender seu conhecimento. Por essa
razão, os executivos responsáveis
pela gestão de conhecimento geralmente ou
vêm da área de sistemas de informação
ou vêm de áreas afins à gestão
de conhecimento mas também tem competências
em sistemas de informação. Mesmo
considerando que apreender as informações
ou “conhecimentos” da organização,
armazená-los e organizá-los em repositórios
eletrônicos ou bancos de dados é importante
e não deve ser visto como algo que já esteja
dado, o objetivo é não apenas disponibilizar
informação mas garantir que também
seja potencializada. Focalizar apenas a primeira
metada desta equação não orienta
o desempenho. O resultado é um SGC que se
assemelha à própria Internet: está cheia
de “coisas” – inclusive “coisas” excelentes – apesar
da maioria destas “coisas” não
serem potencializadas como poderiam.
Princípios de Orientação
do Desempenho para Gestão de Conhecimento
Um SGC
pode orientar e dar suporte ao desempenho das
seguintes maneiras: 1) ligando claramente os
itens de conhecimentos às ações
críticas dos colaboradores necessárias
para os resultados de negócios e 2) disponibilizando
um ambiente de suporte que assegure que o conhecimento
seja potencializado através das pessoas
e situações. Considere os cinco princípios
seguintes que ajudarão a conquistar esta
meta.
Primeiro
Princípio: Focalize
nos Trabalhadores do Conhecimento
Um SGC
certamente deve ser projetado para armazenar
informação que será acessada
por todos na organização, como gráficos
organizacionais, listas de telefones, códigos
de conduta etc. No entanto, projetar o sistema
para dar suporte ao desempenho dos trabalhadores
do conhecimento resultará em um retorno
maior para a organização. Os trabalhadores
do conhecimento são aquelas pessoas na organização
cujo trabalho envolve principalmente a troca de
informações (por exemplo: suporte
técnico, programadores, engenheiros, inventores,
gerentes de projeto, cientistas, consultores...)
Um SGC projetado para dar suporte aos trabalhadores
do conhecimento pode realmente orientar seus desempenhos
a novos patamares de consistência, precisão,
agilidade e qualidade. Comece identificando quem
são os trabalhadores do conhecimento de
sua organização e então descubra
o que fazem. Descubra quais de seus comportamentos
e resultados produzidos têm o maior impacto
nos resultados de negócios, e então
você estará pronto para aplicar o
próximo princípio.
Segundo
Princípio: Dê Suporte
ao Desempenho
Uma
vez que tenha um bom entendimento do que estes
trabalhadores do conhecimento são responsáveis
por realizar, você pode começar a
identificar áreas de seus desempenhos que
podem receber suporte através da provisão
de dados ou informações. Identifique
aqueles itens de conhecimentos que podem ser reutilizados
em muitas situações diferentes que
possam afetar a agilidade, qualidade ou custo associado
ao trabalho. Por exemplo, existem relatórios
ou documentos comuns que possam ser escritos com
maior eficiência caso haja modelos contendo
as formatações e conteúdos
redundantes? Existem outros produtos comuns do
trabalho, como relatórios ou formulários
que possam ser completados mais consistentemente
se as pessoas tivessem uma amostra ou um exemplo
de referência? Ou há uma questão
de qualidade que pode ser aprimorada se houver
uma lista de checagem disponível? A chave é avaliar
criticamente os comportamentos e resultados principais
dos trabalhadores do conhecimento na organização
e incluir itens de conhecimento no SGC que dêem
suporte ao seu desempenho.
Terceiro
Princípio: Explicite
o “Manual do Usuário”
Uma
vez que o SGC contenha um determinado item de
conhecimento, quais sinalizações
estão disponíveis para que o usuário
saiba quando usar este item? Você confia
que o usuário saberá? Se estiver, é provável
que ele não saiba. É necessário
que o SGC seja projetado para avisar e orientar
o comportamento dos usuários, para que a
informação nele contida seja potencializada
com a maior freqüência possível – o
que resulta em maior retorno para a organização.
Você encontra a seguir várias idéias
para explicitar um “Manual do Usuário” para
os vários itens de conhecimento.
- Incorpore
os processos de trabalho na estrutura de organização do SGC de modo que,
para qualquer processo, os usuários possam
ver quais itens de conhecimento estão disponíveis
para dar suporte a seus desempenhos.
- Desenvolva
um mapa de conhecimento, ou índice,
para referência dos usuários, que
liste todos os itens de conhecimentos disponíveis,
a quais processos de trabalho estão conectados,
e como estão relacionados uns com os outros.
- Espere
que os usuários utilizem os itens
de conhecimento relevantes e não “reinventem
a roda” constantemente; e espere que os supervisores,
gerentes e líderes dêem o retorno
apropriado aos usuários. Faça de “construir
sobre o que já existe” um lema para
todos.
- Incorpore
a expectativa de compartilhar conhecimento na
cultura da organização, de modo
que os usuários recebam uma mensagem consistente
e difundida para que usem o SGC.
Quarto
Princípio: Incorpore
Culturalmente as Expectativas de Compartilhar
Conhecimento
Há diversas maneiras de incorporar as expectativas
de compartilhar conhecimento na cultura da organização.
Isto não apenas ajudará a explicitar
o Manual do Usuário do SGC, como também
resultará em um melhor alinhamento entre
a organização e seu SGC, e permitirá que
os usuários formem regras implícitas
sobre as conseqüências de usar ou não
o SGC. Seguem algumas idéias para realizar
esta integração cultural:
- Use
termos relacionados ao SGC e aos negócios
consistentemente; construa um vocabulário
compartilhado em sua organização.
Pode ser útil criar um glossário
corporativo ou uma seção do SGC reservada
para definição de termos comuns.
- Ligue
os objetivos do SGC (e suas atualizações
periódicas) ao enunciado da missão
organizacional, aos planos estratégicos
de negócios e a metas e objetivos de negócios.
Isto manterá a gestão de conhecimento
como uma preocupação estratégica
e assegurará que continue alinhada com as
metas organizacionais.
- Incorpore
os comportamentos desejados de compartilhar conhecimento
nas descrições funcionais,
sistemas de recompensa e de avaliação
ou feedback. Isto lança as bases para que
gerentes e pares dêem retorno efetivo sobre
usar ou não o SGC.
Quinto
Princípio: Verifique a saúde
de seu SGC periodicamente
Uma
vez que sua organização tenha
implementado seu SGC, o que vem a seguir? Lembre-se
do antigo provérbio, “todos os sistemas
vivos devem continuamente se adaptar e evoluir,
ou morrerão”. Isto também é verdade
para os SGCs. Tente uma ou todas as idéias
seguintes ao menos uma vez por ano para assegurar
que o SGC não se deteriorará por
negligência após sua implementação.
1. Conduza uma Auditoria do Conhecimento
Revise
o conteúdo do SGC buscando precisão
e relevância. Procure duplicações
e versões desatualizadas. Normalmente há uma
lista de itens de conhecimentos necessários
ou desejados quando as organizações
lançam seu SGC, aproveite esta oportunidade
para rever a lista de conhecimentos desejados que
nunca se concretizaram no SGC e determine se estes
podem e devem ser adicionados agora.
2.
Organize sessões de análise
da Gestão de Conhecimento
Uma
análise SWOT (do inglês Strengths,
Weaknesses, Opportunities, and Threats, ou Forças,
Fraquezas, Oportunidades e Ameaças) engloba
uma mistura de brainstorming, ou tempestade de
idéias, e pesquisas conduzidas por pequenos
grupos por entre a companhia. Este exercício
desenha um cenário detalhado da saúde
geral da companhia. Então porquê não
usar este exercício para verificar a saúde
geral do seu SGC? Organize uma sessão anual
de análise crítica do sistema:
- Forças: as características
do SGC que ajudam os colaboradores em seus trabalhos
e promovem compartilhamento de conhecimento
- Fraquezas:
as características do SGC
que são menos que o ideal
- Oportunidades:
aperfeiçoamentos que podem
ser feitos, bem como novas necessidades de conhecimento
- Ameaças: características que não
são apenas fraquezas, mas sim obstáculos
a compartilhar conhecimento
3.
Conduza uma Pesquisa de Satisfação
do Usuário
A maneira
mais simples de verificar a saúde
de seu SGC é perguntar a seus usuários
o que eles pensam do sistema. Uma pesquisa pode
lhe dar a chance de reunir dados mensuráveis
sobre a freqüência de uso, estimativas
de buscas por palavras-chave bem ou mal sucedidas,
a profundidade de adesão e suporte por parte
dos líderes da organização
e a intuitividade da estrutura que organiza o sistema.
Então… Que Diferença
Faz?
Orientar
o desempenho através de um SGC
terá impacto nos resultados de negócios!
A Triad seguiu estes princípios no projeto
de seu próprio SGC e realizou um retorno
de 100% do investimento em 16 meses, e atualmente
economiza US$ 4.786,00 em um mês, ou US$
57.432,00 anualmente. Além disso, relatos
informais indicam um efeito positivo sobre a satisfação
e a produtividade dos colaboradores; e medidas
de desempenho indicam um aumento significativo
na freqüência de uso de um item de conhecimento
específico para um dos dois grupos pesquisados
(teste de independência qui-quadrado); e
um aumento significativo na qualidade do desempenho
orientado por este item do conhecimento para ambos
os grupos pesquisados (testes “t” para
amostras independentes).
Jacalyn
S. Smeltzer recebeu o grau de Ph.D. do programa
de Análise do Comportamento da
Western Michigan University e trabalha atualmente
como Consultora de Desempenho na Triad Performance
Technologies, Inc. Especializou-se em ajudar organizações
a definir processos de negócios, assim como
no aperfeiçoamento e redesenho destes processos.
Isto, aliado à sua experiência em
Gestão de Conhecimento (ou KM, do inglês
Knowledge Management), a posicionou como consultora
de organizações que implementaram
um SGC mas não obtém deste os benefícios
esperados. Endereço: 30101 Northwestern
Hwy., Suite 201, Farmington Hills, MI 48334. E-mail
address: Jacalyn_smeltzer@yahoo.com.
Marcelo
J. M. Silva se graduou em Engenharia Mecânica
pela UNICAMP, e em Psicologia pela PUC-SP. Atualmente é mestrando
em Psicologia Experimental na USP. Trabalhou com
a implementação de sistemas de Árvores
de Conhecimentos (um SGC desenvolvido pela Triviumsoft,
representada no Brasil pela DDIC),
onde consolidou competências úteis
para a integração de aspectos tecnológicos,
culturais e comportamentais em projetos de Gestão
de Conhecimento e Inteligência Competitiva.
Endereço eletrônico: marcelo.jms@gmail.com
(1)
Nota do tradutor: o verbo inglês to
leverage poderia ser traduzido literalmente por
alavancar. No entanto, a autora especifica o sentido
de “reutilização adequada em
novas situações”, que pode
ter uma tradução mais próxima
em português com o termo potencializar, derivado
de potencial, que por sua vez tem um sentido consagrado
em Física, Biologia e Filosofia de “capacidade
não realizada”, de acordo com o Dicionário
Houaiss.
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